Acabei de ler agora este diálogo em Piquenique no Paraíso, de Frank Ronan:
- Poderá haver amizade entre pessoas casadas?
- Eu pensava que sim. Pensava que éramos amigos.
- Somos? Então porque não és honesta comigo?
- Que queres dizer?
- Quero dizer que num casamento se têm de ter em conta os sentimentos do outro, pois eles têm influência na qualidade da vida comum. Tem de se pensar nas repercussões do que se vai dizer. Isso não permite a honestidade, que é a base indubitável de uma amizade.
Quantas e quantas vezes não ouvimos alguém dizer que aquilo que procura numa relação é franqueza, lealdade, partilha, etc? Creio que, na maioria das vezes, se referem a evitar mentirosos compulsivos, que visam ocultar algum vício, traições amorosas ou de qualquer tipo.
Contudo, convenhamos, para sobreviver ao dia-a-dia com uma mesma pessoa, seja ela amante ou familiar, há que mentir um bocadinho, distorcer certos factos e ocultar outros. São as chamadas «mentiras inofensivas».
Como dizer àquela pessoa que amamos que sim senhor, está mais gorda? E como contar-lhe que encontrámos um ex e nos soube bem ficar a conversar um bocadinho na esplanada? Que não nos apetece estar com a pessoa amada em determinados momentos e que, volta e meia, nos sabe bem ter a cama só para nós? Que não podemos com o pai ou que achamos que a irmã tem a mania? Que às vezes cheira mal ou não se sabe vestir? Que já podia variar um bocadinho na cama ou que não gostamos que nos lambuze?
Há coisas que sabemos que magoam e, embora haja maneiras mais cuidadosas de abordar certos assuntos, certas feridas que não vemos ficam sempre lá.
Por outro lado, há uma perda de espontaneidade e à-vontade no outro que é mais nociva do que simplesmente ocultar/dizer aquela mentirinha.
Se podemos ser a pessoa mais importante da vida de alguém? Sim. Mas é preciso perceber que um companheiro nem sempre é um amigo.
Amor vs. honestidade
6.7.09
Disse eu, a divina Rachelet aí pelas 17:16
Enfiei isto na gaveta Fragmentos do quotidiano
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10 postas de pescada:
Eheheheh, "lambuze". Eheh.
A única palavra que retiveste em todo o texto. Freudiano isso...
Os amigos sabem demais. Em relação aos companheiros, temos de manter um certo mistério...:)
Concordo plenamente contigo!
Miaus!
Eu discordo. Companheiros de vida devem ser os maiores dos amigos. De qualquer forma, eu entendo a fragilidade disso, por fracos que somos.
E quanto ao "lambuze", eu também tinha ficado com essa palavra, mas ao ver a manifestação da Barbarella e a reação tua, oh divina, fiquei foi com vergonha. Mas acho que Freud sozinho não explica não, é necessária uma boa dose de Jung pra explicar...
Bxana: e contra mim falo, que sou tão desbocada que cometo todos os pecados capitais das relações (como contar tudo à cara-metade actual sobre os meus ex ou dizer-lhes os meus defeitos mais graves logo na cara).
Ibirá: talvez, idilicamente, seja assim. Mas se perguntarmos aos (poucos) casais que duraram mais de 10 anos se são completamente sinceros um com o outro (em salas separadas, claro), duvido que a resposta seja afirmativa.
Sobre a temática, vê o When Harry Met Sally, com o Billy Crystal e a Meg Ryan.
Já vi. Também relevante é o High Fidelity (Alta Fidelidade).
Yap, esse também é muito bom (embora goste mais do livro).
Na minha vontade de fazer bem e ser uma pessoa honesta (bahhhh) já contei "coisinhas" a namorados meus (e neste caso até estou a referir-me a uma coisinha em especial) que simplesmente destruíram o que (ainda?) havia para destruir.
É claro que os limites do que se conta/ diz ou não variam bastante de relação para relação, mas sim, concordo com o que dizes.
A bem da sanidade conjugal há coisas que devem mesmo ser inocentemente mantidas em "segredo".
De facto, acho que algumas pessoas que leram este post não perceberam que não falo em mentir descaradamente sobre coisas importantes, mas, por exemplo, por muito que uma cara-metade diga que quer saber tudo sobre a nossa vida amorosa anterior, na verdade, quase sempre fica magoada e ciumenta e não vale a pena depois explicarmos que tudo isso foi passado e ela é o presente.
Então, não valia mais ter ficado pelo "need-to-know-only basis"?
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