Se a minha vida fosse um argumento do Pedro Almodôvar...

9.6.09

Conseguia finalmente esgueirar-me da cave bafienta e escura onde me fecharam escavacando a fechadura com um saca-rolhas com um galo de Barcelos made in Taiwan. Cá fora, na cozinha, os corpos inconscientes do casal jaziam na tijoleira da cozinha, ele com um cutelo enfiado na goela, ela com a marca Tefal como se fosse um alvo marcado na testa pelo fundo da frigideira.

Pela primeira vez, quase sentia pena da família da menina que precisa de um transplante de medula, em cujo blogue de solidariedade eu tinha deixado os comentários de spam.
Alçava as pernas para me desviar dos corpos, um pé calçado, outro descalço, e chegar ao telefone ao lado do frigorífico. Sem sinal. Vasculhava a carteira da mãe, mas nada de telemóvel.
No quintal, entrava na carrinha familiar (autocolante «bebé a bordo»), mas devia ter um daqueles truques dos carros já velhos, porque a chave não rodava na ignição. Encostada à moradia, uma bicicleta cor-de-rosa Barbie com rodinhas e cestinho branco. Haveria de dar para chegar à povoação.

Na estação de serviço onde parava, pedia à traveca que mascava tabaco ao balcão se podia telefonar. Enquanto esperava que viesse buscar-me a vizinha, entabulava conversa com Pepa D'ouro e o camionista reformado Quim, seu eterno e infeliz admirador, que tentava impressioná-la com citações do Borda d'Água.
Pepa confidenciava-me que, cá para ela, aquela família nunca tinha batido muito bem, mesmo antes da doença da menina. A mãe entrava todas as primeiras terças-feiras do mês para comprar garrafões de gasosa e uma cassete pornográfica, munida de óculos escuros e com as golas do casaco levantadas, como se assim não a reconhecessem naquela vilória! O pai dizia-se que queria ser cantor em rapaz, até tinha cantado uma vezes nos bailes da padroeira, mas que o pai o encheu de porrada e pôs a cantar do alto de um andaime. Suspirava e escarrava mais uma bochechada de tabaco.

A minha vizinha, velha gaiteira de cabelo roxo e xaile preto franjado de vermelho, buzinava ao chegar no seu Nissan Micra cor de ferrugem. Depois de arrancar, contava-lhe do rapto e ela dizia-me que era bem feita, que isso dos casinos era pecado e que, do jogo, Jesus só aprovava a bisca dos sete. Vinha o caminho todo a ouvir a cassete do Júlio Iglesias, a única que aquele rádio conhecia, e a olhar para o velocímetro, inerte nos 40km/h.

4 postas de pescada:

Bxana disse...

Digo-te, tens um espantoso talento para a coisa!:)

Le Rachelet disse...

Só me falta pôr a coisa a render...

Pony disse...

omg omg omg quero tanto saber o final! vou já fazer a minha almodovarice!

Le Rachelet disse...

Oho... estou ansiosa por ver o que daí sairá. :)