O mistério dos atrelados

29.6.09

A razão pela qual se levam crianças atrás para todo o lado é, para mim, mais um daqueles enigmas indecifráveis, como o mistério do Lago Ness, o paradeiro do corpo da Anastasia Romanova ou porque é que eu não consigo fazer um sudoku.

Não me digam que a criança se vai divertir num avião ou num supermercado, pois que poderá haver de divertido em estar confinado em espaços fechados sem poder espernear e gritar à vontade, que é o que elas mais fazem?

Quanto às viagens: o que é que uma criança que ainda anda empurrada no carrinho (e não estou a falar dos deficientes mentais, óbvio) vai desfrutar da gaie Paris ou da bella Roma (para não falar do calor e dos mosquitos, da impossibilidade de circular na maioria das ruas e do desgaste para pais que pretendiam apenas descansar)?

Quanto ao supermercado: porque motivo é preciso irem os dois paizinhos com a criancinha que quer pegar e levar tudo o que vê? Não fazia mais sentido (e era melhor para a sanidade dos demais consumidores e funcionários) ficar um dos pais em casa com o rebento? Acabavam-se as birras, os engarrafamentos de carrinhos e haveria muito menos stress nas idas às compras.

Que os paizinhos amem a sua prole e queiram passar com ela aqueles poucos minutos que têm sem ser de trabalho (ou ida e vinda para o mesmo), até percebo. Mas não seria melhor investirem antes em tempo de qualidade? Não valia mais passarem um fim-de-semana a correr e a pular num jardim ou numa praia do que uma hora infernal a ralhar com os putos na fila das bolachas?
Se lhes perguntassem, acho que eles preferiam...

22 postas de pescada:

Ibirá Machado disse...

Olha, vamos pensar assim... no passado, as crianças imitavam seus pais em suas atividades laborais, fossem elas na lida do campo, fosse em alguma atividade caseira. Faz parte da criança acompanhar e imitar os pais. Hoje as crianças já não vão ao trabalho dos pais, porque os trabalhos são outros e na verdade as crianças não são bem vindas em tais ambientes, a não ser que o trabalho dos pais seja educação infantil. Oras, se os pais de hoje colhem seus alimentos no mercado, talvez seja justo que as crianças os acompanhem, pois isso de uma forma ou de outra faz parte do aprendizado de um pimpolho. Cabe aos pais, porém, saber dar a educação correta, os limites corretos, a liberdade correta...

W. disse...

Ah, compincha! Child hater... também ficas com instintos homicidas quando há criancinhas a correr e a berrar nos restaurantes?

Rachelet disse...

Ibirá: antigamente é que era bom, não tínhamos que esperar pela nossa reforma para ver os putos começarem a ser úteis à sociedade. :D

W.: isso e quando os vejo com aqueles ténis com rodinhas. Tenho sempre a tentação de pregar a rasteira.

Bxana disse...

1. As crianças e as festas de casamento: ora aí está uma coisa que não dá. Quando era pequena, aborreciam-me de morte (bem, em alguns casos, isso ainda não mudou); agora vejo as criancinhas a aborrecerem-se de morte.

2. Cada vez mais tenho assistido ao fenómeno de pais que arrastam as criancinhas para os bares, para assistirem a música ao vivo, karaokes, etc. Não raro, os putos acabam por adormecer nos bancos, sofás, ou cima das mesas, a babarem-se, perante os papás que se estão a marimbar para as necessidades de descanso da criança. Haverá necessidade? Se tiver filhos, por muito que o meu inconsciente grite por liberdade, não vou arrastar os miúdos para bares, cheios de fumo e de pedófilos...

Rachelet disse...

1) E não me venham dizer que os noivos ficariam ofendidos se a criança não fosse. É como obrigar os putos a ir a velórios e enterros: as mesmas caras, as mesmas conversas e beijoquices lambuzadas, as mesmas secas. Só muda a música e a roupa.

2) Argh, é que mesmo em adulta detestaria ser obrigada a ir para esses ambientes, quanto mais em criança. Que é feito da boa da avó?

Peter of Pan disse...

Pára tudo: tu não consegues fazer um sudoku?!?!?

:)

Rachelet disse...

Nem os básicos.
Sou uma perfeita nulidade matemática - o meu cérebro congela mesmo em casos onde não seja preciso fazer contas, mas apenas estejam presentes algarismos.

Paula disse...

Eu diria que estamos a falar do inverso de pedofilia. Isso tem um nome próprio?

Rachelet disse...

Bom, na verdade, pedofilia significa «amor pelas crianças». Neste caso, seria mais pedoarrastamento!

barbarella disse...

Hmm...Eu tenho enteada, por isso falarei!

Às vezes, no meu caso sempre, duas mãos não chegam para ir ao supermercado. Então vão quatro mãos adultas. E duas pequeninas que ficam muito sossegadinhas nos bolsos.

Que nem toda a gente tem com quem deixar os putos, isso já sabemos, e o facto é que não é saudável nem para pais nem para putos excluir estes últimos de todas as actividades dos anteriores.

Mas tudo com o seu peso e medida.

Viagens antes da adolescência não vale pena. Os putos nem se vão lembrar quando crescerem.

Idas ao supermercado é mesmo ao supermercado, ou seja, 10 minutos e já está, não é ir passar a manhã ao hipermercado.

Cafés e bares para mim também são off limits. Mas não faz mal (até faz bem) levarmos as crianças a concertos, espectáculos de dança ou museus dos quais sabemos que elas vão gostar. E não têm de ser coisas para adultos. Têm de ser coisas interessantes. Uma das melhores experiências parentais que tive com a minha enteada foi levá-la, quando tinha uns seis anos, a ver um espectáculo de dança indiana. Ela fartou-se de curtir, tal como todos os outros putos da plateia que abanavam as cabecinhas ao ritmo do bailarico e esbugalhavam os olhos com os dance moves arrojados dos bailarinos.

On top of that, acho que o importante é educar os putos para serem civilizados. Se não os mimarmos e se lhes ensinarmos os limites, eles portam-se bem e a sua companhia é apreciada até por aqueles que não costumam gostar de crianças.

Acho que dizer simplesmente "não gosto de crianças" não faz muito sentido porque tirando as birrentas, as outras são só pessoas pequenas como nós já fomos.
Acho que aquilo de que não gostamos são os pais demasiado babados que nos enchem com detalhes desnecessários sobre as vidas dos filhos (como se tivessem sido os primeiros no mundo a originar o milagre da vida) e que simplesmente não sabem tratar as crianças como as pessoas que elas são, dando-lhes disciplina e amor de forma equilibrada.

Peço desculpa pelo testamento mas se há coisa que me deixa triste é quando algum dos meus amigos emprenha e os outros deixam de o visitar porque passam a vê-lo como "papá". :(

Rachelet disse...

Que tudo é subjectivo em relação à educação que se dá aos putos, concordo. Também já coexisti com crianças bem educadas e nem recomendo nem desaconselho: é uma experiência inócua, como deveria ser a presença de qualquer outro ser humano alheio a mim nestes contextos que foram referidos.

Quanto à alienação dos amigos-pais, devo dizer que é impossível que as pessoas deixem de ser vistas como pais, primeiro, porque o são e segundo, porque parte delas deixarem de ter a mesma disponibilidade e vontade para continuarem a fazer os mesmos programas com as mesmas pessoas de antes. De repente, há um brinquedo novo que é muito mais absorvente e é só quando este finalmente decide ir à sua vida e sair de casa que a maioria das pessoas repara que alienou completamente os amigos.

Ibirá Machado disse...

Ah não, Barbarella, pois eu me lembro muito bem de viagens que fiz com 6, 7 e 8 anos. Lembro até de algumas cenas vagas de viagens feitas antes mesmo dos 5 anos. E são todas boas lembranças, que sempre me deixaram o gosto para voltar aos lugares que visitei... :)

barbarella disse...

Ah lol, esses pais de que falas estão bem lixados, a malta agora só sai de casa aos 30 :P

Ibirá Machado disse...

Barbarella, e afinal de contas, você assistiu Taare Zameen Par?

(Rachelet, perdoe-me utilizar vosso espaço para uma pergunta direcionada a outrem. Mas aliás, veja você também esse filme!)

Rachelet disse...

Babs: é verdade, e quando os filhos têm 30, os pais já vão nos 50/60 e constatam que recuperar as amizades fica um bocado difícil. Algumas até já bateram a bota... :S

Ibirá: não há problema. Aliás, Babs, já te devolveram algum daqueles filmes indianos que tinhas emprestado? Queria cravar...

Sofia disse...

LOOOOOOOOOOL
Só tu! Estou a imaginar-te na sala infantil da minha biblioteca...
Sinto-me mais do que habilitada para comentar este teu post.
Primeiro, viagens com sub-12 não, nunca, jamais. Excepto claro viagens para resorts de papo para o ar e mesmo assim tenho as minhas reservas.
Casamentos e baptizados são sempre um massacre para os mais bebézinhos. Excepto quando os putos já andam e correm e vão amiguinhos também. Aí pode dar-se rédea solta em maior parte das quintas e temos desculpa para nos livrarmos da cerimónia religiosa "ah e tal ele está impaciente vou só com ele ali fora um bocado". E, sim, acho que se divertem. Penso que a partir dos 4/5 anos já aturam bem estas cerimónias e festas.
Supermercados. Até ao momento, o Miguel tem ido sempre comigo. Adora andar sentado na cadeira do carrinho de compras a apontar para tudo. Não mexe em nada e não pedincha nada. No dia em que o fizer começa a ficar em casa. Nunca nos dão prioridade nas filas, por isso presumo que ele se porta bem.
Creio que a razão para levarmos as crianças para todo o lado prende-se com a falta de tempo que temos para estar com elas. É complicado gerir trabalho, vida doméstica e vida familiar. Mesmo que ambos os progenitores dividam tarefas, acredita que o tempo em família é sempre pouco por isso temos de unir alguns destes tempos, normalmente a vida doméstica e a vida familiar, porque não os podemos compartilhar com o horário de trabalho. A solução seria a redução do horário laboral para um dos progenitores, mas não me parece que haja vontade política. Ou então a esterelização em massa, mas, lá está, acabaríamos com a raça humana.
Bjocas

Rachelet disse...

De facto, se há pessoa com bom-senso e habilitada para comentar este post és tu.
Quando o escrevi (assim como quando faço os meus comentários demolidores com crianças como protagonistas) parti do pressuposto que todos os leitores entenderiam (como foi o teu caso) que falo das crianças mal-educadas.

Desconfio mesmo que muitos pais só as levam aos hipers para poderem estacionar nos lugares amarelos e passarem nas filas prioritárias, porque para convívio familiar, com a gritaria, as birras e as ameaças (quando não é tabefes mesmo), duvido.

Tita Costa da Sé disse...

Rachelet, não podia concordar mais.
Acho mesmo que deveria existir uma identidade reguladora dos locais onde criancinhas mal educadas não podem entrar.

Nós eramos mais felizes...

Beijinho,
Tita

barbarella disse...

Ibirá: Não vi :O Eu não presto.
Rachelet: Sim, já devolveram, embora ainda tenha outros emprestados. Que tipo de filme queres? Para chorar? Histórico? Para chorar?

barbarella disse...

"Nunca nos dão prioridade nas filas, por isso presumo que ele se porta bem." - Sofia, brilhaste!

Rachelet disse...

Tita: nos EUA há condomínios "children-free", tal como por cá há condomínios que não permitem animais.

Babs: não tens um que una os 2 géneros? :P

barbarella disse...

Teinho! Vou tratar disso.