Tudo o que me irrita neste sábado (sem ser o vizinho)

14.11.09

Para me distrair um pouco da saga de noites mal dormidas por causa do inquilino mais odiado deste prédio, vou desbroncar nas coisas que neste momento me irritam quase tanto como.
E como daqui da cama o meu raio de visão apenas abrange o computador e televisão, o que me irrita deveras neste momento é:

  1. o reclame da Popota. Acho-a demasiado sexual. Depois venha a Oprah fazer-se de chocada que as meninas de 7 anos queiram ser como a Paris Hilton e as de 12 já tenham feito felations a toda a escola;
  2. que toda a gente na blogosfera ainda fale na Maitê Proença. Irrita-me ainda mais do que as imbecilidades da dita cuja, que obviamente anda a esquecer as tomas da medicação menopáusica;
  3. os Kings of Leon. A malta pseudo-alterna que criticava os Creed e os Nickelback adora os Kings of Leon. Sou só eu a ver uma incoerência nisto?
  4. que não dê absolutamente nada de jeito em 40 canais a um fim-de-semana. Ou 38, porque há meses que há 2 canais que só dão chuva («em testes», dizem eles);
  5. estar sem dinheiro para ir ao cinema ou alugar filmes;
  6. que toda a gente ande para aí a fazer bolos e sobremesas e a pôr fotografias disso nos blogues (*grrr*);
  7. que a Tyra apresente sempre a Twiggy como "living legend". Como é que a Tiggy não se ofende por estarem a chamá-la de velha em cada episódio do America's Next Top Model?);
  8. Nitro Circus, Jack Ass e demais programas idiotas feitos por e para idiotas e que promovem a idiotia. Isto num canal onde deus-nos-livre de dizer palavrões, mas tudo bem em incitar a malta a atirar-se para um poço em chamas num carrinho das compras regado em gasolina;
  9. que mudem o nome dos produtos. O Calgonit passa a ser Finish, a Blanka passa a ser Vanish... Só aceitava se mudassem o nome do Woolite para Rubish;
  10. o parlapiê desnecessário e a artificialidade do Querido mudei a casa.

Interlúdio cómico na saga O Senhor dos Tropéis

13.11.09

Não podia deixar de assinalar um detalhe extremamente relevante na saga.

A situação continua na mesma (deve corresponder àquela parte chata da jornada até ao vulcão). Para não ser sempre eu quem chama a polícia, esta madrugada bati à porta do «valente» Aragorn do 2.º esquerdo. Fiquei uma boa hora à conversa com o casal.
Não pude deixar de reparar que têm o Menino da Lágrima à entrada.

(E olhem que é difícil manter o ar sério e indignado quando temos o Menino da Lágrima a olhar para nós com o seu beicinho trémulo.)

O verdadeiro dilema do cinema português

12.11.09

Não é preciso virem estrangeiros analisar o problema do cinema português. Basta perguntar-me que eu digo. Aliás, mesmo que não me perguntem, eu digo: está tudo na dicção.

Podem aparecer novos valores, fazer-se assim uns trailers crípticos onde só se mostra um actor a dizer uma frase perfeitamente banal num cenário citadino mas com ar de oráculo, podem vir todos os apoios do mundo (e nunca são suficientes para os nossos cineastas), que há-de haver sempre crise no cinema nacional.
O público não gasta 5€ para ver um filme português. Nem 3€ para o alugar. Nem sequer as horas que sejam precisas para fazer o download pirata. Not interested, ponto.

Antigamente (e incluo no antigamente as obras completas do excelso Manoel de Oliveira, que nem que fossem passadas em 2012, teriam sempre aquele ar de película antiga) o problema estava nos actores, que eram artificiais, que declamavam os argumentos (quase sempre adaptações dos nossos clássicos literários, quando não eram as comédias com o Vasco Santana e o António Costa - a nossa era de ouro do cinema). Dizia eu, o problema dantes era a falta de naturalidade. Que assim as pessoas não se identificavam, logo, não aderiam.

Agora, com o pretexto de uma maior identificação, os actores falam tão mal ou pior do que a maioria das pessoas ditas reais e o resultado em cinema é que, a maior parte das vezes, não percebo 7 em cada 10 palavras.
Acho mesmo que o cinema português precisa de legendas. Ou de aulas de dicção. Mas esta levar-nos-ia de volta ao problema da falta de naturalidade: quem é que, nos dias que correm, fala correctamente, sem engolir sílabas nem soar com isso pedante?

Uma espada de Demóstenes. É o que é.

De como as cidades viram aldeias

11.11.09

E nisto, o segundo tomo da saga O Senhor dos Tropéis. Porque, se a dos anéis não se resolveu só com um livro/filme, porque haveria a minha de ser diferente?

Andava a Terra Média sossegada há uns poucos dias, pois o senhorio (chamemos-lhe Gandalf) velara pela paz trocando a fechadura do prédio, cuja chave apenas dera aos inquilinos dignos (chamemos-nos A Irmandade da Chave). O inquilino do demónio parecia ter-se desfeito em miasmas purulentos e todos dormiam o sono dos mais ou menos justos.
Nisto, retomam os barulhos nocturnos vindos do Aterro de Sauron.
Frodo (moi) vira e revira, tapa a cabeça com o edredão, conferencia por sms com a vizinha de cima e lá vai disposto a tocar à malfadada campainha. Que não toca. Ou seja, cortaram-lhe a luz. Bate à porta sem resposta e, quando regressa à toca, os barulhos parecem rir-se das suas pretensões ao descanso.

Saca da sua eficiente queixinha, desta vez, à polícia. Assim instruiu o próprio Gandalf. Mas os dois polícias (ou elfos) não ouviram barulho nenhum (claro, Sauron quando viu o carro dos elfos piou fininho - ou não piou de todo). Bateram à porta do patife infractor e ninguém se apresentou (está-se mesmo a ver). Ficámos em águas de bacalhau, mas pelo menos os barulhos cessaram durante a restante noite na Terra Média.

No dia seguinte, soube que as hostes do Bem estavam todas alinhadas para a batalha. A Irmandade da Chave estava toda ela a par da visita da polícia e todos confirmaram que não só ouviam os barulhos como não conseguiam dormir por causa deles.

Eu, Gandalf e o vizinho do 2.º esquerdo (chamemos-lhe Aragorn, mas sem implicar com isso a parte da boniteza) decidimos violar as regras e entramos n'O Aterro de Sauron com a chave mágica de Gandalf. Só para desvendar o mistério de tanta arrumação num T1+1. Nada. Vivalma e vazio. Um espelho partido no chão (espero que os 7 anos de azar sejam para Sauron e não para a pobre Irmandade), um televisor (tudo propriedade de Gandalf) também escangalhado, aspecto de sujidade e desarrumação na cozinha.

Agora à noite, a vizinha de cima quis conferenciar sobre estes acontecimentos recentes e não é que Frodo perdeu as últimas horas entre fuchicos que começaram com o «parece que Sauron esteve preso» e terminaram depois com «sei de onde vendem sapatilhas da Nike a 25€»?

Aguardamos todos com expectativa pelo silêncio desta noite. Que, se não vier, lá caberá nas mãos deste vosso Frodo chagar a polícia de novo. Que tudo se queixa, tudo se oferece (Aragorn a dizer «eu esta noite ia tomar medidas, mas depois vi que já alguém se tinha antecipado»... right!), mas, na hora da verdade, fica tudo quietinho a espreitar pelo olheiro. Nem setas de Legolas nem espadas de elfos, nada: só eu e as minhas pantufas rosa choque diante do perigo.

Herr Führer Sebastian Josef foi a banhos

E enquanto uns e outros se despediam dos moribundos devaneios políticos (que hei por bem eliminar aquando da minha regência), gozava eu de duas semanas de merecido e benfazejo descanso junto da avó.

Entre o corte de pêlo anual (porque a imagem não é algo que um líder mundial deva descurar) e corridas salutares pela praia, retemperei as energias necessárias para envidar os esforços que se avizinham no devir.

As emoções foram fortes, incluindo um ataque à minha integridade física sob forma de um pontapé que um corredor me deu, sem dúvida motivado pelo pânico de me ver prestes a humilhá-lo com o meu sprint. É evidente que não me magoou, acrescido o facto de que o infeliz covarde foi brindado com apupos e apedrejamento moral de todos os espectadores afectos que assistiam da esplanada. O seu corpo ainda apodrece do alto da estaca fixa na praia, onde corvos o debicam a cada alvorecer e as crianças lhe vêm cuspir e atirar iogurtes fora do prazo.

Já a mesma sorte não tive ante esse dispositivo demónico que dá pelo nome de secador. É minha intenção abolir esse aparato maléfico, membro do Eixo do Mal composto - como é sobejamente sabido - pela máquina de lavar, o aspirador, a panela de pressão, o autoclismo e o estendal desmontável.

A todos os súbditos que manifestaram saudades e preocupação,
as minhas saudações cordiais,

Sebastião «Bastiani» José.

1 grau de separação!

10.11.09

Não me contive.
Pela primeira vez, escrevi um e-mail ao Primeiro-Ministro* e ele, ou o assessor dele, respondeu-me! E olhem que foi rápido. Aposto até que esteve vai-não-vai para responder no fim-de-semana e, se não o fez, foi para não ser inoportuno!
Sinto-me tão importante! Será que depois disto o assessor dele me vai enviar um convite para me adicionar o PM ao Facebook?

* O assunto do e-mail? O enquadramento jurídico dos animais no Código Civil.

Duas semanas para fazer, uma para escrever, quarenta e nove para recordar

9.11.09

Assim foi.

*suspiro*

O fim da Internet: serviços que não lembram a ninguém

Desde sms a avisar as utentes de que estão em ovulação até quadros pintados com as cinzas dos nossos entes queridos, há serviços que não lembram a ninguém.

Dito isto, não me importava de pagar a alguém para estar nas filas em meu lugar e admito que encomendaria as últimas refeições dos condenados à morte, nem que fosse pelo factor de oferecerem a máscara do criminoso.

O que uns consideram estranho poderá bem ser um nicho de mercado emergente. Porque há aqueles que têm as ideias, há aqueles que as criticam e depois há aqueles que simplesmente as roubam.

Férias no fim: au revoir, Paris

Para terminar, um fim de tarde em Paris.
Tinha muitas expectativas, o que geralmente não é bom pressuposto, mas muitas coisas contribuíram para ter ficado pouco impressionada:

  1. foi pouco o tempo, só deu para ver a Notre-Dame e parte do Quartier Latin. Como a linha do metro estava interrompida, tivemos de sair onde? No Arco do Triunfo, onde deu para espreitar de longe a Torre Eiffel. Parecia um pacote para turistas japoneses: todos os pontos em poucas horas!


  2. apesar da altura do ano, a cidade está tão pejada de turistas que nem me conseguia mexer no meio da multidão (e eu com a agorafobia). Vi mesmo turistas que traziam de novo os vestidos e fatos de casamento para se fazerem fotografar com o cenário parisiense;


  3. porque era preciso trocar de aeroporto (Beauvais = antecâmara do inferno), tivemos de carregar com as malas e de apanhar o comboio que liga Charles de Gaule ao centro, linha que poria a de Sintra a parecer o comboinho do zoo e onde achei que talvez fosse finalmente desta que iria ser assaltada;


  4. para ajudar à festa, o voo para o Porto foi horrível, com a histeria de propaganda da Ryanair e uma maldita criancinha que berrou grande parte do trajecto. Não fosse suficiente, tive de sofrer a vergonha de ouvir os turistas espanhóis explicarem uns aos outros a razão das palmas na aterragem. «É um povo que não está habituado a voar com frequência», diziam. Eu só corei e calei.
Enfim, não foi a impressão mais positiva, mas não desisto. Simplesmente terei de dar uma segunda oportunidade a Paris. De preferência, sem voar pela Ruinair.

Férias a leste: dzien dobri, Krakow

8.11.09

26h num comboio é uma experiência tão extenuante que só mesmo depois de uma visita a Auschwitz-Birkenau conseguimos relevar o conceito de sofrimento. O pica, ainda por cima, era um imbecil que, como não falava nada que nós compreendêssemos, se limitava a gritar connosco, como se gritando nos fizesse subitamente aprender russo.

Cracóvia é o centro da vida cultural e académica da Polónia, cidade património da UNESCO desde 1978 (ano da sagração do primeiro Papa eslavo, João Paulo II, filho dilecto da cidade). Foi relativamente poupada durante a Segunda Guerra Mundial em termos arquitectónicos, mas o mesmo não se pode dizer em termos humanos.

Do gueto de Cracóvia foram salvos muitos judeus por Oskar Schindler e safou-se o realizador Roman Polanski (homem de sorte, este), mas milhões de dissidentes políticos, soldados russos, cidadãos polacos, ciganos, homossexuais e judeus foram exterminados no complexo de Auschwitz-Birkenau.

Os campos de concentração não são uma visita de que se goste, mas deveria ser obrigatória para quem quer que se interesse por história e sobretudo para quem nega até hoje o Holocausto. A nossa guia era muito emotiva e, não estivesse tão apinhado de turistas (encontrámos inclusive o chinês de Kiev), teria derramado uma lagrimazita quando vi as toneladas de cabelo rapado às mulheres para fabricar tecido para as fardas nazis ou quando vi salas inteiras repletas de próteses ou de sapatos que as pessoas tiravam quando lhes diziam que, depois de horas de viagem em vagões sem ventilação ou oxigénio, iam poder finalmente tomar um duche.

No final da tarde, para aligeirar, o Cyril vem-nos buscar para outra visita guiada, desta vez, a Nowa Huta (significa «Nova Siderurgia»), uma cidade projectada segundo o modelo estalinista mesmo no subúrbio de Cracóvia. Bebemos um shot de vodka no único restaurante da cidade (que parou nos 50s, com as suas estatuetas a Lenine e vetusta pista de dança), visitámos um apartamento que é uma verdadeira cápsula daquele tempo (com os utensílios e móveis originais) - tudo isto deslocando-nos no famoso Trabant, que tive oportunidade de conduzir, para pânico dos demais ocupantes deste caricato símbolo do comunismo.

  • 1.ª impressão de Krakow: aqui sim, nota-se para onde vão os fundos comunitários - um óptimo sistema de transportes, edifícios e monumentos restaurados e limpos, um centro habitado por jovens e dotado de todos os serviços e comércio (ao contrário das baixas ocupadas por bancos e ministérios, ao deus-dará depois das 18h, que nós conhecemos). As pessoas são simpáticas e todas as que abordei falavam inglês.
  • Krakow com medo: não houve medo, mas ficámos muito indignados quando o nosso crazy guide, para nos fazer o jeito, nos deixou à porta do centro comercial e, mal saímos do carro, levou com uma multa. Ah, e tive algum medo quando, ao guiar o Trabi, carreguei no travão já perto de uma curva apertada (cheia de carros estacionados) e o carro não abrandava.
  • Krakow de faca e garfo: o fantástico bistro junto ao nosso Premium Hostel (o melhor hostel em que já fiquei, com a simpaticíssima Magdalena como recepcionista, que nos desencantou uma pizza às 23h do dia de Halloween), que tinha um minestrone, uns paninis e uns bifes de peru com molho de pimenta verde de chorar por mais.
  • Krakow no seu melhor: o passeio de carroça que nos levou num percurso pelos principais monumentos da cidade. Só tive pena do coitado que ia atrás de nós e que teve de esperar quando um dos cavalos fez o cocó e o cocheiro desceu para o limpar.
  • Krakow (s)em palavras: tak/ne (sim/não), djakuie (obrigado), do vidzenya (adeus).


Cada dia mais cegueta

7.11.09

A miopia é uma herança genética que percorre o lado materno da minha família e que se me apresentou logo na segunda classe, escrevia e desenhava eu com a cabeça deitada em cima dos cadernos.

Comecei o périplo dos óculos bastante cedo. Não porque tenham gozado comingo, apesar de ser a única caixa-de-óculos da sala.
O facto é que usar óculos é uma seca - por muito estilosos que possam ser alguns modelos e por muito que nos aumente a aparência de inteligência. Se chove, são inúteis, se bebemos bebidas quentes, embaciam-se as lentes, se acabamos de os limpar, sujam-se, se adormecemos a ler ou a ver televisão, ficam tortos, etc.

Ao fim de quinze anos deste tormento, e depois de ter dado uma desastrosa, onerosa e fugaz oportunidade às lentes de contacto, optei pela cirurgia laser. Que foi a coisa mais inteligente que fiz na vida. Sem exageros.

Imediatamente seguida pelas maiores burrices que fiz na vida.
Um mês depois do procedimento, cujo pós-operatório implica evitar movimentos bruscos com a cabeça, exposição demorada ao sol, poeira e esforços... que faço eu? Festival do Sudoeste. Previam 25.000 pessoas e tiveram o dobro. Como imaginam, as condições eram tudo menos propícias a uma boa recuperação.
Mas essa burrice nem foi a pior. Afinal, mesmo no meio da poeira e dos pulos, eu ia pondo as gotas!

O que estoirou com o balão da visão 20/20 (que me granjeou o título de «olhos biónicos» ou de «olhos de 400 contos») foi esta constante necessidade/adicção de estar diante do ecrã sem pausas.
Já há alguns anos que voltei a usar óculos, embora só o olho esquerdo precise e não tenha as dioptrias que tinha antes (por ora...) e ainda que só use diante do computador.
Ultimamente, noto que piorei. Conduzir à noite sem óculos? Um risco (quanto mais não seja porque só vejo as placas depois de passar por elas). Mas o longo preâmbulo serve apenas para vos contar mais dois episódios típicos a que me expus estas férias:

  1. É um autocarro, é um avião, é o Superhomem? Estava eu a rapar frio à espera do autocarro que nos devolveria a Vilnius e a contar como, no auge da miopia, tinha mandado parar o que me parecia um autocarro e depois se revelou um camião. Rimo-nos. O que aconteceu pouco depois de contar a história? Avistei um autocarro e... era uma carrinha.


  2. O meu trolley é muito melhor. Finalmente em Paris, prontos para a escala final de regresso, aguardámos pelas nossas malas na infame passadeira do aeroporto. O meu trolley é bastante genérico e passo sempre pela ansiedade de que alguém o leve por engano. Descarto um com o comentário «Nah, não é aquele; o meu é de muito melhor qualidade! E é maior. Aliás, este é azul e o meu é preto». Era o meu.

Férias a leste: servus, Chişinau

Depois de atravessarmos a Ucrânia num comboio que ganhou o nosso galardão para a latrina mais fétida e imunda, finalmente somos recebidos por alfabeto latino! Na Moldávia falam romeno (embora prefiram que se diga que falam moldavo), que é uma mistura entre o italiano e o francês e algo extra, que é mais fácil de perceber lido do que falado. Mas para ter um trabalho decente, é oficiosamente exigido que se saiba falar russo.


A cidade tem um aspecto muito recente, o que não surpreende se considerarmos que depois da ocupação pelo Império Otomano veio a ocupação da Rússia (integrando o então governo da Bessarábia). Depois da Primeira Guerra Mundial, tiveram a independência, apenas para a perderem com a ocupação soviética depois da Segunda. Como se não fosse estrago suficiente, sofreram um terramoto de grau 7 em 1940.

  • 1.ª impressão de Chişinau: a cidade é muito pobre e há muita mendicidade, mas, mais uma vez, não sentimos insegurança, mesmo quando atravessávamos as estradas largas em passagens subterrâneas desertas à noite e com um cheiro a cebola e a urina inenarrável.
  • Chişinau com medo: o modo como conduzem. O Boris, que nos levou à Transnístria, não hesitou em dar um «toquezinho» no carro em frente, na ganância de ir para a fila da direita. Como ele insistia em dizer (aliás, era a única coisa que percebíamos), é tudo "no problem" por aqui.
  • Chişinau de faca e garfo: o restaurante da malta elegante da cidade fica num complexo comercial onde se pode comer comida mexicana, asiática, italiana... Não sei se era bom, tinham-se-me acabado os leis e já não quis trocar mais dinheiro.
  • Chişinau no seu melhor: os pontos de interesse da capital moldava ficam vistos numa hora, o que dá jeito quando não temos muito tempo entre duas viagens.
  • Chişinau (s)em palavras: da/nu (sim/não), multsumesc (obrigado), la revedere (adeus).


Sou queixinhas-xinha-chora-chora, senhora deeeeeesentendida

6.11.09

Dois anos a morar neste estaminé e já assisti à ascensão e queda de três agregados habitacionais no ínfame piso da incessante arrumação nocturna (chamemos-lhe O Aterro de Sauron).
Já chamei a polícia, já fiz queixinha ao senhorio e, depois de outra semana a arrastar-me de pijama escada acima, já me resignava a considerar a hipótese da terapia e medicação...

Saio do quentinho da caminha com o meu discurso da proletária-que-necessita-de-descanso ensaiado e o dedo em riste para a campainha do infractor.
Não uso o elevador nem acendo as luzes para não alertar o meliante; eu cá vou à ninja (por pouco não tropeçando nos estendais das escadas). Mas assim que confirmo que o barulho parece vir d'O Aterro de Sauron, cala-se tudo e fico sem norte (e sem vontade de passar novamente pela vergonha de ouvir a pessoa dizer que não é ela, não senhora, que anda a bater com coisas no chão às 4 da manhã).

O facto é que os inquilinos lá mudam, mas as moscas são as mesmas. Até em férias me parece que oiço o fantasma dos móveis arrastados.
Antes de me render, apostei tudo numa última queixinha ao senhorio, que até me tem em tão alta conta, não obstante todos os episódios esquisitos a que me exponho (como, por exemplo, trancar-me na minha própria varanda).

E fiz bem. Parece que a criatura desse andar, que nunca vi, está em feudo com o senhorio, que até me agradeceu o telefonema e perguntou se não me importava de servir de testemunha em caso de litígio para o expulsar. Outros vizinhos alinham-se na queixa, ao que parece, confirmando que ainda não é desta que oiço coisas que não estão lá (ufa!).
Serei, portanto, o Frodo do Senhor dos Tropéis nesta luta pelo meu prrrrecioso descanso! (Menos os pêlos nos pés.)

Viver frugalmente no séc. XXI

Não sei se será só coisa lusa ou se é transversal a outros povos esta mania de dar mostras do que não se é nem se tem. Cagança, em bom português. Andamos por aí com telemóveis de última geração e portáteis topo de gama, vestimos o último grito da colecção e trocamos de carro a cada 3 anos - mas a que preço?
Eu recuso-me a ceder aos cartões de crédito e às compras a prestações. Tudo o que tenho de meu (e é bem pouco) foi pago a pronto, porque fui criada com duas máximas: não contar com o ovo no cu da galinha e não ter vícios se não tenho com que os sustentar.

Em tempos de crise, reconhecida ou não pelos média (porque crises há muitas, não é só quando convém e em tempos de campanha), a pobreza existe cada vez mais, mas admite-se cada vez menos e a classe média encolhe cada vez mais o seu número de membros, mas deus nos livre de admitir que prescindimos do que quer que seja.

E qual é o conceito não assumido de pobreza para a classe média dos dias que correm? É termos um tecto, um ordenado e um carro espartanos e não podermos dar-nos a luxos que a dita classe média considera essenciais.

Como trabalhadora independente, não tenho direito nem a subsídio de férias nem à remuneração pelos dias que tirei. Assim, de que «direitos» prescindirei este mês (até receber o ordenado) para sustentar os dias de descanso que mereci até à última sesta*?

  • sobremesas, bolos, chocolates, sumos. Vou viver de fruta e de chá este mês. Paciência. Chamem-lhe dieta saudável;
  • passeios de carro. Aquele meio depósito servirá apenas para ligar o motor aos fins-de-semana e para que a bateria não morra de vez. E para ir à biblioteca - porque ao menos ler é de graça;
  • saídas. Nada de copos, restaurantes, cinemas, lanchinhos...

Podem objectar que há gente que vive nas ruas, que não tem o que comer nem o que vestir, etc. Eu a isso não chamo pobreza: chamo miséria.
Podem objectar também que gastei em viagens quando podia ter poupado. Refuto que não elejo destinos e meios de transporte dispendiosos e que o que gastei este ano em viagens gastou muita gente o dobro em carregamentos de telemóvel, cigarros ou em idas ao café - tudo vícios que não tenho.

Portanto, trata-se de chamar as coisas pelos nomes: sou pobre. Mas não tenho dívidas, tenho saúde e desfruto de experiências que muita gente que vive «melhor» do que eu não terá. Posso bem apertar o cinto. Melhor ainda: posso dispensar o cinto.

* Não, mãe - isto não é um apelo subreptício para que me transfiras dinheiro. É apenas um desafio a mim mesma e uma afirmação do estado real das coisas.

Férias a leste: privet, Bender e Tiraspol

Nunca ouviram falar na Transnístria, pois não? Pois bem, apesar do que o imbecil do dono do hostel em Kiev quis dar a entender, não é o faroeste na versão soviética; é apenas uma cápsula do tempo mais glorioso do estalinismo, com autonomia reconhecida apenas por esse outro gigante da autonomia, a Ossétia.

A guia Tanya e o condutor Boris levaram-nos a conhecer Bender, onde está um memorial dedicado aos soldados mortos em várias guerras, mesmo de facções opostas, e Tiraspol, a capital, onde existe uma estátua de Lenine em frente ao Palácio do Governo que não é permitido fotografar (embora possamos comprar o postal nos correios...).

  • 1.ª impressão de Tiraspol: existem casinos e lojas da Adidas nesta capital comunista?!
  • Tiraspol com medo: nenhum medo, apesar de ter tirado à socapa a foto do Palácio do Governo, coisa que é proibido fazer, e visto um Nikito ao fundo a olhar na minha direcção.
  • Tiraspol de faca e garfo: não me lembro do nome do restaurante, mas tinha um menu em inglês e poderia pertencer a qualquer país europeu. Quando veio a conta, o Boris e a Tanya fizeram-se de desentendidos (vá lá que tinham pedido um pão e uma sopinha).
  • Tiraspol no seu melhor: foi difícil não me rir do moço que nos seguiu desde o museu de Tiraspol até quase ao restaurante. Apresentou-se como Oleg, disse que Portugal é um país muito bonito e que era guia. Parecia-se imenso com o Napoleon Dynamite (minus the hair). Estava a ver se roubava os clientes à guia, mas só nos dava informações inúteis e incorrectas e não conhecia o conceito de perímetro individual.
  • Tiraspol (s)em palavras: da/niet (sim/não), spaciba (obrigado), da svedanya (adeus).