Amor vs. honestidade

6.7.09

Acabei de ler agora este diálogo em Piquenique no Paraíso, de Frank Ronan:

- Poderá haver amizade entre pessoas casadas?
- Eu pensava que sim. Pensava que éramos amigos.
- Somos? Então porque não és honesta comigo?
- Que queres dizer?
- Quero dizer que num casamento se têm de ter em conta os sentimentos do outro, pois eles têm influência na qualidade da vida comum. Tem de se pensar nas repercussões do que se vai dizer. Isso não permite a honestidade, que é a base indubitável de uma amizade.

Quantas e quantas vezes não ouvimos alguém dizer que aquilo que procura numa relação é franqueza, lealdade, partilha, etc? Creio que, na maioria das vezes, se referem a evitar mentirosos compulsivos, que visam ocultar algum vício, traições amorosas ou de qualquer tipo.
Contudo, convenhamos, para sobreviver ao dia-a-dia com uma mesma pessoa, seja ela amante ou familiar, há que mentir um bocadinho, distorcer certos factos e ocultar outros. São as chamadas «mentiras inofensivas».

Como dizer àquela pessoa que amamos que sim senhor, está mais gorda? E como contar-lhe que encontrámos um ex e nos soube bem ficar a conversar um bocadinho na esplanada? Que não nos apetece estar com a pessoa amada em determinados momentos e que, volta e meia, nos sabe bem ter a cama só para nós? Que não podemos com o pai ou que achamos que a irmã tem a mania? Que às vezes cheira mal ou não se sabe vestir? Que já podia variar um bocadinho na cama ou que não gostamos que nos lambuze?

Há coisas que sabemos que magoam e, embora haja maneiras mais cuidadosas de abordar certos assuntos, certas feridas que não vemos ficam sempre lá.
Por outro lado, há uma perda de espontaneidade e à-vontade no outro que é mais nociva do que simplesmente ocultar/dizer aquela mentirinha.
Se podemos ser a pessoa mais importante da vida de alguém? Sim. Mas é preciso perceber que um companheiro nem sempre é um amigo.

O fim da Internet: prender o cabelo ganha um novo significado

Não há que haja melhores dias para se ir preso do que outros... Pensando bem, e depois de ter deslizado pelas fotografias das ledas cabeleiras destes criminosos apanhados, se calhar há.

Resta saber se o cabelo é mais um reflexo da indigência ou se foi depois de uma ida a um cabeleireiro particularmente sádico que lhes deu a travadinha.

(Devo dizer que fiquei surpreendida com o Trevor... com aquele ar angelical de quem não parte um prato! E duvido muito que uma carta de condução caducada seja o maior dos males do Moises.)

Um post à cara-podre

3.7.09

Então vamos lá pôr as cartas na mesa:

1) Faço 30 anos no final deste mês e não tenho ideias para comemorar a coisa.
No ano passado fiz um pequeno gathering cá na maison Rachelet, este ano queria algo diferente - mas baratucho, que ainda tenho de poupar para as férias.

Vi de tudo, desde bowling a paintball, coisas que são engraçadas, mas ou ficam caras ou são fora de mão para a maioria das pessoas. Alguém tem uma sugestão pertinente?

2) Presentes.
Bem sei que não têm lata para perguntar e, antes que me dêem livros de autores e CDs de artistas que detesto ou itens de cozinha de que não preciso, cá vai a minha wishlist, mesmo à cara-podre: em virtude do post anterior, vales de compras (H&M, Mango, Zara, BodyShop...) é do melhor que podem dar-me. Dinheiro é simpático, mas depois fico com pena se não o poupar e, assim, sou mesmo obrigada a gastá-lo em mim (e não nas despesas quotidianas de sobrevivência).

Pronto. Ficou dito e assim escusam de andar a bichanar o que há-de ser.

I am ready for my make-over

2.7.09

Preciso de dar uma volta no visual.
Não sei qual a percentagem de importância de cada um dos itens seguintes, mas contribuem:
  1. deparar-me, cada vez que ligo a televisão, com programas de transformações, desde aquele ranhoso que dá na Sic Mulher à hora de almoço ao saudoso "The Swann";
  2. estar com os pés para essa idade em que já não se tem idade para andar a chinelar em desmazelo por aí;
  3. estar fartinha deste meu ar a ponto de ter praticamente aniquilado o meu guarda-roupa e sapateira com tanta purga.

Enquanto o Tim Gunn não apanha o primeiro voo (e o charter da Ryanair (lol) para o Aeroporto Francisco Sá Carneiro) para vir cá fazer o meu revamp, terei de começar hoje pela ida ao cabeleireiro.
As minhas metas para o final do ano:
  • ter um cabelo Pantène;
  • conseguir usar um par de sapatos de salto (o conforto será o desafio);
  • ter um guarda-roupa estiloso, com pouco, mas de qualidade;
  • passar a andar pintada (à excepção dos inefáveis passeios do cão, vá).
Em suma: ser uma senhora.
Adeus a esta franja manhosa, aos ténis a toda a hora, às roupas juvenis e à cara deslavada. I'll make it work!

Não é que acredite nos horóscopos...

1.7.09

... mas até acredito nos signos. Ou melhor, que pessoas que partilham o mesmo signo tenham características psicológicas semelhantes.

E não é assim tão descabido. Ao mais céptico bastará pensar na influência comprovada que a Lua, simples satélite terrestre, tem nas marés e nas colheitas da Terra.
Porque não teriam, então, os restantes planetas do Sistema Solar influência sobre os seres insignificantes que somos nós, humanos?

Mercê destas semelhanças entre nativos dos mesmos signos, é natural que haja afinidades e repulsas entre determinadas combinações.
E porque as minhas afinidades assim se compactam, parece que começa hoje outro mês raiado de aniversários.
A todos os Caranguejos e Leões, parabéns!

O mistério dos atrelados

29.6.09

A razão pela qual se levam crianças atrás para todo o lado é, para mim, mais um daqueles enigmas indecifráveis, como o mistério do Lago Ness, o paradeiro do corpo da Anastasia Romanova ou porque é que eu não consigo fazer um sudoku.

Não me digam que a criança se vai divertir num avião ou num supermercado, pois que poderá haver de divertido em estar confinado em espaços fechados sem poder espernear e gritar à vontade, que é o que elas mais fazem?

Quanto às viagens: o que é que uma criança que ainda anda empurrada no carrinho (e não estou a falar dos deficientes mentais, óbvio) vai desfrutar da gaie Paris ou da bella Roma (para não falar do calor e dos mosquitos, da impossibilidade de circular na maioria das ruas e do desgaste para pais que pretendiam apenas descansar)?

Quanto ao supermercado: porque motivo é preciso irem os dois paizinhos com a criancinha que quer pegar e levar tudo o que vê? Não fazia mais sentido (e era melhor para a sanidade dos demais consumidores e funcionários) ficar um dos pais em casa com o rebento? Acabavam-se as birras, os engarrafamentos de carrinhos e haveria muito menos stress nas idas às compras.

Que os paizinhos amem a sua prole e queiram passar com ela aqueles poucos minutos que têm sem ser de trabalho (ou ida e vinda para o mesmo), até percebo. Mas não seria melhor investirem antes em tempo de qualidade? Não valia mais passarem um fim-de-semana a correr e a pular num jardim ou numa praia do que uma hora infernal a ralhar com os putos na fila das bolachas?
Se lhes perguntassem, acho que eles preferiam...

O fim da Internet: a cara do futuro

Se na sexta-feira se pisgaram do trabalho deixando coisas pendentes a levedar em cima da mesa, então nem pensem em clicar no site de hoje.
Trata-se de um comedor de horas que transforma uma fotografia vossa em... bom, no que vocês quiserem!

Já imaginaram como seriam se fossem de outra raça? E de outro sexo? E se tivessem sido pintados por Boticelli ou Modigliani? E se fossem um chimpanzé?
Já estão a ver o potencial deste site, não estão?
Fiquei a saber que a Natureza não errou comigo, porque eu teria dado um homem muito feio!

São João, dá cá um balão para eu brincar

24.6.09

Ainda não foi desta que fui para a confusão da Ribeira ou dos Aliados, bater com martelinhos e alho-porro nas cabeças dos demais transeuntes, mas festejei um São João portuense como manda a tradição: com churrasco, grinaldas recortadas, cantigas pimba e lançamento de balões - tudo entre amigos.

É inevitável tecer comparações e creio que o Santo António lisboeta fica a perder...
Também por cá há fogueiras para saltar, sardinha e febras na brasa e muita sangria, fogo-de-artifício e manjericos, e pode não haver marchas e noivas de Santo António, mas há o alho-porro com que os rapazes se metiam com as raparigas e os balões que sobem sobem, balões sobem, e vão pedir àquela estrela que os deixe lá viver e sonhar... há a cascata são-joanina de que falava o Rui Veloso na derradeira música sobre esta cidade e uma união única e foliões.

A quem quer que ande a dar-me música

23.6.09

Isto de se ser uma super-estrela mundial tem sempre o seu revés. Vem nas letras pequenas.
Das chamadas anónimas que se desligam à mais recente ideia de me porem a ouvir música clássica quando atendo, o facto é que não me posso queixar de falta de popularidade.

Gosto muito do meu número de telefone, que me acompanha há anos (incrível para alguém que costumava mudar de e-mail e de número de telefone a cada mês), mas parece que vou ter de tomar medidas agressivas se o meu fã melómano não se acalma e/ou arranja uma outra forma mais salutar de aliviar a sua tensão sexual acumulada.

Amigo/a, já experimentou fazer amigos? Há muitos sítios onde pode encontrar gente nova, cheia de atenção para lhe dar. Não foi ao piquenique do Modelo com o Tony Carreira? Não se preocupe, tem muitas oportunidades de meter conversa nas filas da segurança social ou das finanças de qualquer Loja do Cidadão. E, na improvável eventualidade de ser atendido/a antes de tempo, aproveite para ver se tem tudo em ordem, que com estas entidades nunca se sabe... Veja lá que no outro dia me mandaram carta a dizer que não entreguei um papel em 2006!


Se nem assim se safar, há sempre umas moças e moços que, por uma quantia tão ínfima para a posição (lit.) que desempenham, terão muito gosto em aturá-lo/a.
Eu, por outro lado, ocupo o meu tempo útil com essa coisa tão fora de moda a que se chama trabalhar e o tempo inútil com essa coisa que certamente desconhece que se chama amigos.

O fim da Internet: mete o videojogo no...

22.6.09

Só podia ser invenção do país do sol nascente: imaginem que vão a um salão de jogos e metem moedas numa máquina cujo jogo consiste em enfiar um dedo de plástico pelo rabo acima de alguém. Quanto mais força exercerem, mais pontos ganham e maior é a expressão de dor (pudera) da personagem, podendo o jogador escolher entre o/a ex, a sogra, uma prostituta, um pedófilo, entre outros.

Os criadores deste lindo jogo advogam que é uma maneira muito eficaz de aliviar o stress, mas eu cá acho que só pode mesmo ser uma desculpa para a malta tarada não se sentir tão... tarada.

Pergunto-me, ainda assim, se dará para fazer o upload de imagens e criar outras personagens...

Postais da Toscana: Pisa, Florença, Lucca e Viareggio

20.6.09

A Toscana em poucas palavras? Monumentos lindos, pessoas bonitas, boa comida, sol e calor.

First stop: Pisa
A Pisa dos postais está toda concentrada no Campo dei Miracoli: a torre, a catedral, o baptistério, o cemitério e os museus.

Do lado oposto do rio Arno ainda se encontra um ou outro monumento digno de visita, como San Paolo a Ripa D'Arno ou Santa Maria della Spina, mas quem vem a Pisa quer é a Torre Inclinada.
Ora, a 15 euros para estar na fila ao sol (só entram grupos de 20-30 pessoas de cada vez) subir, tirar fotos e descer, achei que mais valia subir a Torre dos Clérigos (sempre é mais barata e tem mais degraus) e gastar 10 euros num bilhete que dá acesso a todos os outros monumentos e os museus na praça - e, isso sim, vale a pena.



Não consigo nem dizer quantas pessoas vi fazer aquela pose típica de quem finge empurrar ou segurar a torre - é consoante a personalidade e decerto já terão sido escritos vários estudos sobre o assunto. Confesso que também passei o meu bom quarto de hora a tentar fazê-lo, mas ou saía muito em cima ou muito atrás ou tremido ou escuro... Bah.

A cerca de uma hora de comboio fica Florença.
Aqui sim, anda-se e bem, mas a cada calhau em que se tropeça há campanários, leões de pedra e brasões.
Levei dois casacos e um chapéu-de-chuva que nunca saíram da mala e que de bom grado teria trocado por um pacote de pensos Hansaplast e umas sandálias ortopédicas daquelas feiosas que os turistas americanos usam (nisso são espertos).
Uma overdose de igrejas, museus, estátuas e palácios de tal modo que sinto que eu, os santinhos e as talhas douradas já somos tu-cá-tu-lá.


Sinto que andei a nadar nos livros de história sobre o Renascimento, tirei fotos à pilinha do David do Michelangelo, atravessei a PonteVecchio com os seus cadeados proibidos (promessas de amores eternos...), vi as roupas, loiças, pratas e jóias do Palácio Pitti e calcorreei os jardins Boboli até me entrar a paisagem toscana olhos adentro.

Paragem seguinte: Lucca, a cidade dentro de muralhas.
Não terá mais de 4 km de diâmetro, mas não há esquina sem capela, torre ou pracinha.
Na encantadora Lucca, toda a gente anda de bicicleta e passeia os cães (ao mesmo tempo, a maior parte das vezes), respira saúde e tem tudo limpinho. Percorri as seis portas da muralha, onde todos os nativos andam, correm, pedalam ou patinam a qualquer hora do dia. Não conheci ainda localidade que me transmitisse uma tal sensação de qualidade de vida. Menos infestada de turistas que Florença, come-se melhor por menos. Puccini não poderia ter nascido em melhor terra.


Tempo houve para uma breve passagem por Viareggio para nadar no Tirreno (15 euros por duas cadeiras e um guarda-sol, mas a praia, de facto, estava imaculada) e ver as fachadas Art Nouveau desta estância balnear do jet-set.

Depois disto, não me levem a mal se não quiser ver igrejas, estátuas e museus durante uns tempos. Mas uma bela pizza já vinha outra vez...

A casa dos vossos sonhos - parte 3

Desta feita, vamos espiolhar o que a Bxana gostaria de ter em casa:

(...) ficam aqui a imagens da casa dos meus sonhos, neste caso, os recantos que gostaria que a minha casa tivesse.

Uma vez que estou a pensar em construir casa, talvez (se o banco deixar, e o $ aguentar) até recrie alguns, em ponto pequeno...:)
Espero que gostes, e que não aches os meus gostos muito duvidosos ;-)
Quem me dera que toda a gente tivesse um gosto duvidoso assim! Fiquei encantanda com as escadinhas na sala para os gatos, mas os meus favoritos são mesmo os espaços do alpendre/terraço. Acho que até passava a comer mais saladas e fruta em ambientes tão salutares assim.



Já sabem, se quiserem partilhar imagens da casa dos vossos sonhos, mandem-me a(s) imagem(ns) para lerachelet [arroba] gmail [ponto] com. Estou sempre pronta para cuscar conhecer novas sugestões!

Se precisarem de ideias, vejam também:
a casa dos sonhos da Arya,
a casa dos sonhos do Ibirá,
a casa dos meus sonhos.

O fim da Internet: recordes da nudez

15.6.09

O lindo site de hoje vem proposto pelo Ponei.
Trata-se de um site inteiramente dedicado a recordes conseguidos por pessoas... nuas.

Desde o primeiro homem a estar nu no Pólo Norte e no Pólo Sul ao maior grupo de gente nua a saltar à corda, aqui temos de tudo com quem não veste nada.

Descubram quantas pessoas nuas cabem numa cabine telefónica, numa árvore ou numa montanha-russa; satisfaçam os vossos instintos libidinosos vendo os maiores seios (naturais ou não), os maiores pénis ou a stripper mais alta; e vejam a primeira vez que apareceram pêlos púbicos na Playboy ou o casamento com mais gente nua.

Di viaggio!

11.6.09

Finalmente, o tempo de correr pelos aeroportos, gastar as solas, andar de máquina em riste e tecer muitas exclamações perante qualquer monumento e costume chegou!
Estava precisada de um banho de estrangeiro, percebem o que quero dizer?
O nosso país tem muito para ver (e tanto que me falta conhecer!), mas nada como um saltinho a outro país para aquele entusiasmo de férias.

Desta vez, Pisa, Florença e Lucca serão os pontos de passagem de uma semana na encantadora Toscana.
Espero comer pizza em Pisa, conhecer o que resta dos Médicis em Florença e calcorrear as muralhas medievais de Lucca - e se der, um mergulhinho em Viareggio, a Biarritz italiana.
Arrivederci tutti!

Se a minha vida fosse um argumento do Pedro Almodôvar...

9.6.09

Conseguia finalmente esgueirar-me da cave bafienta e escura onde me fecharam escavacando a fechadura com um saca-rolhas com um galo de Barcelos made in Taiwan. Cá fora, na cozinha, os corpos inconscientes do casal jaziam na tijoleira da cozinha, ele com um cutelo enfiado na goela, ela com a marca Tefal como se fosse um alvo marcado na testa pelo fundo da frigideira.

Pela primeira vez, quase sentia pena da família da menina que precisa de um transplante de medula, em cujo blogue de solidariedade eu tinha deixado os comentários de spam.
Alçava as pernas para me desviar dos corpos, um pé calçado, outro descalço, e chegar ao telefone ao lado do frigorífico. Sem sinal. Vasculhava a carteira da mãe, mas nada de telemóvel.
No quintal, entrava na carrinha familiar (autocolante «bebé a bordo»), mas devia ter um daqueles truques dos carros já velhos, porque a chave não rodava na ignição. Encostada à moradia, uma bicicleta cor-de-rosa Barbie com rodinhas e cestinho branco. Haveria de dar para chegar à povoação.

Na estação de serviço onde parava, pedia à traveca que mascava tabaco ao balcão se podia telefonar. Enquanto esperava que viesse buscar-me a vizinha, entabulava conversa com Pepa D'ouro e o camionista reformado Quim, seu eterno e infeliz admirador, que tentava impressioná-la com citações do Borda d'Água.
Pepa confidenciava-me que, cá para ela, aquela família nunca tinha batido muito bem, mesmo antes da doença da menina. A mãe entrava todas as primeiras terças-feiras do mês para comprar garrafões de gasosa e uma cassete pornográfica, munida de óculos escuros e com as golas do casaco levantadas, como se assim não a reconhecessem naquela vilória! O pai dizia-se que queria ser cantor em rapaz, até tinha cantado uma vezes nos bailes da padroeira, mas que o pai o encheu de porrada e pôs a cantar do alto de um andaime. Suspirava e escarrava mais uma bochechada de tabaco.

A minha vizinha, velha gaiteira de cabelo roxo e xaile preto franjado de vermelho, buzinava ao chegar no seu Nissan Micra cor de ferrugem. Depois de arrancar, contava-lhe do rapto e ela dizia-me que era bem feita, que isso dos casinos era pecado e que, do jogo, Jesus só aprovava a bisca dos sete. Vinha o caminho todo a ouvir a cassete do Júlio Iglesias, a única que aquele rádio conhecia, e a olhar para o velocímetro, inerte nos 40km/h.